songs from old diaries
Reminiscências, memórias, recordações, lembranças, evocações, imagens, fragmentos, evidências, fundamentos, experiências, passado, ocorrências, história, vivências...
24 janeiro, 2009
sobre as canções
03 novembro, 2007
cachoeiras de letras e solidão
Para ser justo, se não fosse pela insistência de Carlos, sequer este texto teria sido escrito.
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03 dezembro, 2006
nuvens brancas

Esta é a primeira poesia que posto aqui. Devem vir outras, naturalmente.
Foi escrita quando estava dando um tempo na casa da tia Jane, fase de transição entre o primeiro Ap que tive, no condomínio Vasco da Gama, e o outro que viria a dividir com dois amigos de faculdade, Alan e Marcelo.
Com toda a certeza, essa foi a época em que mais li na minha vida. Trabalhava no Academia Amazônia como produtor de vídeos e viajava muito, às vezes por uma semana inteira, nas brenhas (belíssimas) da Amazônia. Aí voltava e ficava duas, três semanas curtindo a grana do trampo (não era tanto assim, mas, milagrosamente, o pão se multiplicava).
Uma imagem muito forte que ficou dos tempos de Vasco da Gama são as nuvens brancas, frias de janeiro, que passavam ao longe em direção ao rio. De algum modo, me sentia bem ao vê-las, nas madrugadas, pelo janelão do kit net. Pareciam levar consigo a melancolia profunda que sentia, pois havia posto fim num relacionamento promissor sem entender muito bem por quê.
Eu estava novamente à beira da estrada, esperando a vida passar e com os dedos a pedir carona - talvez para estas breves linhas...
Próximos passos - o eterno retorno
Um ecoar se encetou
e me incomoda
mais do que os beijos que já não posso ter
Quando a cega dama sem aviso chegou
era cedo em minha cama de sonhos
Das árvores, apenas começava a escorrer
um suor de frio e medo
Acordo e estou só
num indesejável réquiem - aos primeiros anos
Essa lembrança, de onde vem, traz o murmúrio do mar
E eis que outra vez sou um estranho no novo ninho
Mas as nuvens frias agora descansam ao chão
É só o tédio ou o mundo realmente parou de girar
numa silenciosa e modorrenta tarde de verão?
Em algum lugar é chorada uma saudade
que não tem fim
pois de quem, ou de onde, não se sabe
Passageiro no trem do inevitável
é fugaz o que desliza à minha volta
À frente, meu pé direito, quimeras
e uma sina de andar demais sobre folhas mortas
A. Ramôa
Janeiro - 1999
18 novembro, 2006
o prédio da Elita
Como é mesmo o nome daquele prédio ao lado do Theatro da Paz, na Assis de Vasconcelos? É o único por ali...
Bem, o fato é que lá morou a Elita, primeira pessoa que conheci com esse nome. Nome legal. Pessoa mais legal ainda.
Acho que a Elita era a saída pra quando tudo dava errado naquelas tardes onde a gente ficava que nem mosca de lixão, zanzando, zanzando, sem saber bem onde pousar. Devia ter não mais que 19, idade média de todos naquela época.
Éramos amigos e assíduos freqüentadores do ap da Elita: Carlinhos, eu, Alfredo, Nélio, Omar, Nicolau, Érico, Vivian e outros demais não tão frequentes. Vez ou outra, as duas meninas, inseparáveis, apareciam num ensaio da banda na casa do Carlinhos. Ficavam no sofá da sala, esperando a gente acabar com as discussões de praxe para decidir o que tocar (nesses dias as discussões eram breves, pq sacávamos logo do repertório minguado as duas ou três músicas que errávamos menos e, portanto, causavam melhor impressão).
Mas, em geral, nas manhãs de domingo nos reuníamos nos bancos do hall do prédio da Elita, após as sagradas voltas na Praça da República e depois de ver as mesmas figuras de sempre e falar dos últimos shows de Rock na cidade (assunto incansável naqueles inícios dos 90).
Às vezes almoçávamos lá. Ela descia com umas marmitinhas de plástico coloridas e cheias de miojo, que nunca foi tão gostoso.
Domingo era sagrado, mas não tínhamos hora certa para aparecer. Uma noite cheguei sozinho no ap da Elita e o porteiro, que já era camarada, me disse para ir até o hall que ela já estava lá com o Carlinhos. Encontrei-os aos beijos no banco. Constrangimento total. Depois foi a vez do Érico se enroscar com a Vivian. O primeiro relacionamento durou mais.
No início, os affairs não mudaram muito a rotina da turma, mas logo vieram as brigas dos casais: Elita chorando, Vivian xingando, e a gente tendo que voar para outros destinos menos conturbados nas manhãs de domingo.
Elita vivia dizendo que iria morar em Fortaleza e, depois de várias ameaças inócuas, um dia fiquei sabendo que ia mesmo. Nessa época já não nos víamos tanto, mas eu sempre a tive como uma das melhores pessoas que convivi naqueles tempos. Amiga prestativa, carinhosa e sem frescura. Nossos domingos não foram mais os mesmos sem ela.
Mas o tempo passa and people change. A Vivian ainda encontrei algumas vezes, mas não demorou muito para que nos víssemos como estranhos. Também já passei pelo prédio inúmeras vezes e fingi indiferença ao fato de que ali tive um refúgio importante naqueles dias bacanas de minha vida.
Ah, vida... Tantas despedidas! Encontros e desencontros.
Por onde andará a saudosa Elita?
15 outubro, 2006
postcards from the edge

O Vladimir um dia apareceu com esta letra num dos ensaios da banda. A maior parte está aí, mas preenchi alguns versos com a memória vacilante de 15 anos de intervalo entre lá e cá. Mesmo assim, está incompleta.
Gosto, particularmente, do título.
In the house was four
but there were no hope
near the hungman tree
the prophet was trying to speak...
the sky bless your fake blind mind
the firefly stop with the light
Mr. you show me three ways out of here
But you didn't show me your hide.
I don't need no plastic or mirror
I don't need no empty minds
Keep your hands around my body
And maybe we could kiss the sky...
By Vladimir Cunha
1991
16 setembro, 2006
amigo de fé, irmão camarada

Costumo pensar que sou um cara de sorte. Sempre tive de muito um pouco, e minhas alegrias são tantas que parecem tingir as tristezas de cor e profundidade, dando-lhes graça e sentido.
Tive duas, três ou quatro mães, se levar em conta quem me pariu, por quem fui criado e quem muito me auxiliou na vida. Pais, ao menos três eu tive: o que me gerou, o que me criou pelos primeiros e breves sete anos, e o que me acompanhou pelo longo tempo adiante, no início – fundamental – de meu vacilante entendimento deste mundo estranho.
De fato, esse terceiro pai foi meu irmão. Ou nem isso, pois ele é o tal “irmão de criação”, sem vínculos de sangue - o que só reforça o respeito que tenho por ele.
Vou falar da história que sei, a que minha avó Luciola me contou. Ou, ao menos, a que lembro de ter ouvido e, em parte, vivido.
Lá pelos idos de 1964, seu João, cabo da Polícia Militar, não tinha onde morar com sua mulher Cilena, duas filhas de colo, Rutilene e Roseana, e um bebê recém-nascido, Rubens, meu futuro irmão. Assim, instalaram-se mal e provisoriamente em uma garagem de uma casa desocupada, perto de onde moravam meus avós.
Meu avô os viu e ficou comovido com a precária situação daquela família. Contou à minha avó e os dois resolveram ajudar, com alimentos, roupas e o que mais pudessem.
As coisas melhoraram um pouco e, com a ajuda de meu avô, seu João alugou (e depois comprou) uma pequena casa de madeira não muito longe dali. Meus avós continuaram por perto e o pequeno Rubinho passava dias em casa, tornando-se a alegria do casal Ramôa – que só viria a ter o primeiro neto, Paulo André, dali a alguns anos.
Nasci 11 anos após tudo isso. Quando meu avô morreu, em 1982, Rubinho decidiu vir morar comigo e minha avó na casa da Vila Farah. Não lembro de tê-lo estranhado, até porque ele conviveu algum tempo conosco (ao menos nas férias) quando morávamos em Mosqueiro.
A presença daquele rapaz de 19 anos em casa foi uma dádiva para minha avó Luciola, que pôde contar com alguém para administrar as contas de casa e ajudá-la no dia-a-dia. Pra mim, Rubinho sempre foi alguém muito especial, e naqueles primeiros anos foi fácil confundi-lo com o pai que eu sempre quis por perto. Acho que ele permitiu essa ingênua confusão.
Hoje, meu irmão completa 42 anos de idade. Está em SP, onde já mora há 10 anos. Lembro de uma viagem que fizemos juntos, de carro, alguns meses antes de ele ir. Uma ocasião especial, verdadeira reviravolta para nossas vidas. Rubinho me levava para encontrar minha mãe biológica, Sonia, que eu mal conhecera e que já não via há 11 anos. Ele, por sua vez, tinha acabado de sair do banco onde trabalhou por sete anos, e se batia com uma decisão difícil: ir ou não ir embora, em busca de algo melhor para si, mas tendo que recomeçar quase do zero.
Conversamos muito naquela viagem de mais de três horas. Lembro de ter insistido para ele ir e tentar melhorar sua vida. Não era algo fácil pra mim, pois sabia o que isso representava: estaria realmente longe de meu irmão pela primeira vez, e somente poucos anos após a morte de minha avó.
Mas temia mais por ele ficar e envelhecer sem ter tido a oportunidade de descobrir coisas, ver coisas. No fundo, acho que sentia que devia isso a ele. Afinal, muitos de seus melhores anos foram dedicados a mim e a minha avó (ele nunca cobrou nada).
Eu (re)conheci minha mãe e Rubinho foi para SP. Falei com ele há pouco, por telefone. Meu irmão venceu: é gerente numa das melhores agências de um dos maiores bancos do mundo, na maior cidade da América do Sul. Tem seu próprio apartamento, seu carro, suas coisas e já conhece meio Brasil.
Vivemos muitos e muitos dias juntos, mas de 1975 para cá já vão mais de 31 anos. Hoje, sou pai e busco compartilhar com meu filho, Dante, alguns dos valores que aprendi com meu irmão: honestidade, benevolência, responsabilidade, doação.
Dante vive com um pai ao seu lado, mas não tem irmãos, nem mesmo de criação - ao menos, não ainda. Quando ele nasceu, não tive dúvida alguma: escolhi Rubinho para ser seu padrinho e estar por perto, de um jeito ou de outro e sempre que possível, nos longos anos de sua vida.
16 julho, 2006
fundamentos

Essa bela frase, da conceituada escritora francesa do século XVII, Marie de Rabutin-Chantal, a marquesa de Sévigné, sempre me ocorre quando lembro de minha vívida e bem vivida juventude.
Anos longos, de dias curtos. Mas, sobretudo, época de infinitas descobertas, repletas de sobressaltos e prazeres jamais sentidos novamente com igual intensidade.
Durante a vida me apaixonei por tantas coisas, tantos sons, sabores, aromas, imagens, idéias, bichos, pessoas... Muita gente deixou marcas em minha impressiva alma - amigos e inimigos, paixões e rinhas, velhos e novos, bons e maus. Sou a soma de minhas angústias e alegrias, e multiplico-as à medida que o tempo passa com imagens que vou inserindo no lugar dos buracos da memória.
Mosqueiro é um lugar-chave de meu baú de reminiscências. O que digo, penso e sou foi, em grande parte, abstraído e conceituado ali, entre férias, primos, uma velha casa, dois velhos queridos e tantos dias e noites repletos de histórias e experiências.
Não é a receita completa de uma vida feliz, mas são ingredientes fundamentais da mistura.
Cada um tem a idade de seu coração e o meu tem muitas cicatrizes (não rugas, querida marquesa de Sévigné) que revelam sua larga experiência. Pois bateu demais... Demais.
Ainda que nem de longe o suficiente.
Alguém já disse que envelhecemos ao pararmos de nos divertir...
17 junho, 2006
mudaram as estações e nada mudou

Ainda hoje, quando ouço seu timbre maravilhosamente rasgado (atitude e emoção alguns decibéis acima do tom monótono das rádios), tenho essa certeza serena.
Lembro bem daquele mês de dezembro, dias cinzas em Belém, chuvas intermitentes. Ouvi pelo rádio, eu acho. Ou alguém teria ligado para dar a péssima notícia? Já não sei dizer. O fato é que ela se foi no auge, como só os melhores sabem fazer. Não devia, mas foi. Fazer o quê?
A conta está menor para nós, que ficamos, pois - parafraseando Elton John em Empty Garden, feita para John Lennon - um talento como o de Cássia ninguém consegue substituir.
Abaixo, Dezembro, canção que escrevi no dia em que soube da morte dela.
Lembro que vi você por aí
A idade mais tardia que a memória
Voltavas de uma festa de arromba
Vinho branco misturado aos teus passos
Rodopiantes, tão delirantes...
Vestido solto ao vento no dia que amanhecia.
Dezembro, eu sei
É sempre tão estranho
Festas e sorrisos tradicionais
Costumavas me esperar
Pois nada era mais importante.
E agora há tanta cor desperdiçada
Enquanto escorre o tempo
Mas por mais que o Sol se esconda
Nessa longa estrada
Sigo em frente, assim
A mente segue contra o tempo a te encontrar
Pois nada era mais importante.
Dezembro, eu sei...
A. Ramôa
Dezembro, 2001. Belém-PA.
01 junho, 2006
açaí, aveia e poltergeits...
Num desses inícios de julho, idos anos 90, eu e Alfredo viajamos antes de todos para o nº 218 da rua Coronel José do Ó, em Moscow. A ilha estava deserta, uns e outros gatos pingados em praias e praças, mas, mesmo assim, nos divertíamos muito. Como a grana era pouca, a ordem do dia era comprar algo barato para comer, rápido, fácil de fazer e, principalmente, que rendesse o máximo possível (estimávamos que a “vuca” da família só iria chegar dali a três dias).
A iguaria mágica escolhida foi o açaí, que, misturado com aveia Quaker, se multiplicou (ou seria mais correto dizer "tufou"?). Com o estômago forrado do delicioso caldo escuro, passávamos o dia na praia, circulando atrás de algo que não tínhamos a menor idéia do que seria. Mas também não importava muito, não...
Numa das noites, resolvemos ir pra Vila. Nos aprumamos devidamente para o que desse e viesse, e seguimos em busca das pequenas de plantão. Voltamos lá pelas duas da manhã sem sequer um vira-lata por companhia.
Mas para chegar à saudosa Vivenda Luciola, vindo pela 2ª rua, era necessário passar pela travessa conhecida como “Rua dos Jambeiros”, uma via um tanto soturna à noite, por causa dos altos jambeiros plantados no canteiro central. Pois bem, estávamos voltando, lamentando sobre nossas desventuras românticas e enaltecendo nossos feitos aventureiros (principalmente o fato de estarmos sobrevivendo de açaí e aveia), quando algo aconteceu. Ali, exatamente no meio da Rua do Jambeiro, o Alfredo virou pra mim, agarrou meu braço com uma mão e, do nada, começou a tremer, enquanto me olhava os olhos fixamente. O cara ficou pálido em milésimos de segundos e eu, sem ter a mínima idéia do que se passava, comecei a gritar com ele no meio da madrugada: _ “Ei, Alfredo, que porra é essa? Me larga, cara! Quê isso? Tá ficando doido?! Larga meu braço, meu!”. Não deve ter levado mais que 10 ou 15 segundos, mas foi o suficiente.
Quando o Alfredo finalmente voltou a si, eu já tinha dado uns três tapas no braço dele, tentando me afastar. Um pouco desnorteado, ele perguntou o seguinte: _ “Tu viste?”. Ao que se seguiu o diálogo:
Alexandre: Vi o quê, porra?
Alfredo: Aquela galera...
Alexandre: Que galera, meu?! Não tem ninguém aqui! Porra, não faz mais isso, não!
Alfredo: Ih, o cara...
Alexandre: Ih, o cara, é... Faltou bem pouco pra te dar uma remada.
Alfredo: Égua, era um monte de gente falando, passando em volta da gente, olhando pra gente... Bora logo embora daqui.
Bem, resumindo a versão dele, o que rolou foi um acesso mediúnico. Mas eu tenho lá minhas dúvidas, até porque o Alfredo nunca bateu muito bem da bola, e também adorava inventar uma história maluca como essa pra contar pros outros depois.
Eu não vi nem ouvi nada. No entanto, ainda hoje, não esqueço da expressão dele naquela noite. Aqui entre nós, na hora, não pareceu fingimento. Ou então o cara tá se perdendo, pois devia ser ator.
De qualquer maneira, prefiro lembrar daqueles dias de outra maneira bem mais agradável: sem sombra de dúvidas, foi a época da minha vida em que mais bebi açaí.
Com aveia, graças a Deus, nunca mais.
30 maio, 2006
um certo seu Ivan

De certo, o passado afeta a todos. Poucos são os que podem dizer-se imunes aos assédios da nostalgia, ao que há muito não alcança os olhos. Raro mesmo é o que não deixa rastros...
Nem bem começava o dia, lá ia o velhote para a banca de revista. O itinerário era sempre o mesmo, a busca pelo jornal quentinho, mal saído do forno da gráfica, era como um vício impiedoso que tirava aquela alma recurvada de casa, fizesse chuva ou sol.
Seu Ivan era parte da paisagem corriqueira dos longos dias de minha infância, e dos quais eu era observador atento e fiel. Do alto relativo de meus oito anos, confortavelmente instalado – com a ajuda de uma almofada macia – no parapeito da ampla janela de casa, eu analisava o leve cotidiano da estreita e acolhedora Vila Farah.
Seu Ivan era uma figura estranha e um tanto enigmática, mesmo para minha fértil imaginação de menino. Um velhinho magro e ligeiro, de roupas sóbrias e chapéu de fibra gasto na cabeça, a idade indefinida apenas um pouco menos fantástica do que supúnhamos eu e meus pontuais comparsas na peteca e no fura-fura, ao o avistarmos pela rua apressado, faminto das últimas notícias.
Nunca fui muito afeito de falar com quem nada me pergunta. Conselho sábio de minha avó: em boca fechada não entra mosca, mosquito ou qualquer outro inseto de gosto desagradável. Pra ser exato, sempre fui um tanto tímido, e na infância vivi os momentos áureos de minha agora combatida insociabilidade. De fato, fui de uma timidez tão absurda que chegava a corar ao perceberem o quanto era tímido.
Nunca conversei com seu Ivan, nem sequer vi seu rosto de perto, sempre meio encoberto pelo inseparável chapéu. Devo tê-lo cumprimentado não mais que umas duas vezes, de longe, sem encará-lo um só momento, e apenas porque minha mãe obrigou-me, entre resmungos sobre educação e respeito para com os mais velhos. Para acentuar sua estranheza, diziam os garotos mais velhos da vila que seu Ivan tinha um jeito de falar com as pessoas olhando no olho um tanto de banda, com um tenebroso sorriso torto lançado a todos os que, como eu, mediam menos de um metro e meio de altura. Mas os mais altos que os garotos mais velhos até que o achavam bem simpático.
Ainda hoje, lembro daquela manhã com muita clareza. O vento chacoalhava as folhas do jornal, como fazia com as do jambeiro da vizinha dona Cota, e o papel amarelado, manchado de letrinhas negras, encobria o rosto de seu Ivan. O caminhão dos sorvetes Kibom primeiro me encheu de uma infantil e saborosa alegria, inundando d’água a boca, mas só para logo depois me transbordar de uma impressão estranha, nunca antes sentida. O jornal esvoaçou por todos os lados da rua, pleno de liberdade, suas folhas soltas flutuavam num sem fim... Pareciam não ter como ou onde cair.
Tempos depois, descobri que seu Ivan, na realidade, não se tratava de um leitor febril, de um cidadão informado sobre os vais e vens do mundo. Não. Com uma alegria estranha, que travestia-se em tristeza de momento a momento, fiquei sabendo que o velhinho tratava-se, sim, de um avô dos mais amorosos, que sofria de saudades da neta jornalista, contratada havia algum tempo por um vespertino de São Paulo, e que encontrara a forma de amenizar o vazio que sentia por meio das páginas do diário paulistano encomendado, nas quais devorava com um profundo orgulho as parcas linhas assinadas pela garota.
O dia seguinte ao atropelamento de seu Ivan marcou minha vida como o primeiro em que comprei um jornal, com dinheiro roubado da caixinha de jóias de minha mãe (quando ela descobriu o pequeno delito, a confusão só não foi maior do que a minha própria ao tentar abrir e segurar aquelas folhas enormes, quase do mesmo tamanho de meu corpo inteiro). E sempre que me lembro daquele velhote magro, ágil, de chapéu de fibra amarelo-desbotado, algo que vem de dentro mansamente me diz que, de um jeito meio enviesado como o sorriso que lançava ao interlocutor, seu Ivan foi um pouco responsável por minha incursão na fugaz e atropelada rotina do jornalismo.
27 maio, 2006
melô do verão

Essa é pra recordar. Uma canção inventada in family, ou melhor, entre primos. Cantávamos em coro sempre que íamos andando para a praia, nas férias de julho de 89, em Mosqueiro. Sei, sei, agora pode parecer ridículo, mas naquelas alturas era algo muito "pré".
Versão da versão, a melodia é a mesma de um house antigo, made in USA, que virou tema de verão da extinta Rádio Jovem (só lembro de um trecho: "na praia o sol, quero te ver curtindo o som da Jovem... É verão, é verão"... aí o Joba gritava "100,9!"). Putz, me sinto um velho! É melhor deixar pra lá. A versão Ramôa é esta aí embaixo (218 era o nº de nosso velho casarão, hoje em ruínas).
"Acordo de manhã, vou pra praia do Farol, a pé, tomando aquele sol!
Ah, as assaduras vão aparecendo... Oh, yeah!
Ah, não tem pomada pra passar no pé...
Agora tá pai-d'égua, pintou o esquema.
Eu e você e o Sassá Mutema.
É verão, é verão (218!)
É verão, é verão (218!)"
28 fevereiro, 2006
vento do cão

Falei do Fred e me lembrei de uma coisa esquisita que aconteceu quando o conheci.
Era uma noite soturna em Mosqueiro, iniciozinho de julho. Eu, Omar, Nélio e Alfredo viajamos para a ilha antes de todos, mas a luz do velho casarão da 3ª rua havia sido cortada. Confesso que não tivemos brio suficiente para enfrentar aquela imensidão de madeira em tamanha escuridão. Omar sugeriu irmos até a casa de um amigo dele, na estrada do hospital.
Fred morava já próximo à Praia Grande e sua casa era bem menor que a nossa – o que naquelas alturas era um incentivo a mais. Como nós, ele viera na frente da família, estava só e por isso não teve problema nenhum em nos acolher. Papo vai, papo vem, lá pelas 02h30 a mãe do anfitrião chega de Belém sem aviso. Nem esperamos a esculhambação acabar, voltamos a pé com redes e lençóis debaixo do braço.
Ríamos do ocorrido quando uma ventania apareceu, assim, do nada. Achamos esquisito, mas o medo só tomou as rédeas quando percebemos que o vento nos acompanhava, uivando e balançando a copa das árvores ao nosso lado – as que ficavam pra trás, misteriosamente, paravam de se mexer.
Chegamos lívidos no velho casarão, mas resolvemos não entrar. Subimos a escada e ficamos os quatro na varanda, tentando entender o que acontecera. Foi quando Omar (o mais apavorado dos três, que jurava ter visto algo se balançando nas árvores) apontou para um grande bacurizeiro que havia nos fundos da casa. – Ali, vocês estão vendo? Tem algo naquele galho mais grosso, lá no alto! - Não sei se algum de nós realmente viu o que Omar jurava estar olhando pra gente. Tão rápidos como a própria ventania, entramos na sala, trancamos tudo, armamos as redes bem próximas e dormimos em, no máximo, cinco minutos.
Não lembro de ninguém ter reclamado da escuridão.
27 fevereiro, 2006
fredfrog
Enquanto escrevo escuto Vienna, na voz “eltonjonada” de Billy Joel. Sem quê nem pra quê lembro de um cara que conheci há milênios atrás. Fred. Não convivemos muito mais que alguns dias, mas não pude esquecer algo estranho que ele sabia fazer com as mãos. Os dedos mexiam-se de uma maneira esquisita, pareciam moles como os de um réptil. Todos ficavam repugnados ao ver, mas sempre pediam pra ele repetir o freak show.
A música é realmente uma poderosa condutora de imagens.
Por onde andará o velho FredFrog?
Saltitando, quem sabe, de um lado para outro nesse vácuo de tempo desde que apertamos as mãos (argh!) pela última vez.
Nota: Fred tocava flauta como ninguém, provavelmente devido às propriedades esquisitas de suas mãos. Lembro de uma melodia que ele costumava soprar, algo medieval, antigo... Bem bacana.
port d'Arthur

"Na curva do Porto Artur/ O sol, um rio/ Um fio de memória branca/ A criança vai sorrir.
E vão tantas luas/ Demais tanto arder/ Sobe e desce a rua/ De meu bem querer.
Na senda das horas/ Te vi tão fugaz/ Um mito na tarde/ Mil anos atrás.
Olhe, já sinto a brisa do amanhã/ E é sonho o que vejo ao céu do entardecer/ Teu beijo é travoso/ É vício de se perder.
Um beijo na chuva/ É tanto prazer!/ O “gosto” na curva...
(Lembranças do Porto Arthur ao anoitecer)
Tão bela menina/ Me diga aonde eu vou...
Vivi nos teus olhos/ A vida que vi/ Memórias de um cego/ Do amor aprendiz."
A. Ramôa | 1998.
26 fevereiro, 2006
the diving love
05 fevereiro, 2006
uma das primeiras canções
04 fevereiro, 2006
the oldest song


